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Alysson Paolinelli, o patrono da agricultura tropical (sempre na memoria)

Alysson Paolinelli

O Bra­sil per­deu nes­ta quin­ta-fei­ra, 29, Alys­son Pao­li­nel­li — o homem que revo­lu­ci­o­nou a agro­pe­cuá­ria bra­si­lei­ra. O ex-minis­tro da agri­cul­tu­ra fale­ceu, em Belo Hori­zon­te (MG). A revis­ta Bal­de Bran­co pres­ta home­na­gem sobre os fei­tos de Pao­li­nel­li atra­vés do arti­go pro­du­zi­do por Xico Gra­zi­a­no, mem­bro do Con­se­lho Cien­tí­fi­co Agro Sus­ten­tá­vel (CCAS):

Minei­ro, 86 anos, Pao­li­nel­li é o melhor minis­tro da Agri­cul­tu­ra que o Bra­sil já teve. Duran­te seu perío­do, entre 1974 e 1979, no gover­no mili­tar de Ernes­to Gei­sel, ocor­reu a vira­da de cha­ve da agro­pe­cuá­ria brasileira.

Naque­la épo­ca se ini­ci­ou o pro­ces­so de moder­ni­za­ção tec­no­ló­gi­ca que iria trans­for­mar a velha agri­cul­tu­ra lati­fun­diá­ria do país. Pao­li­nel­li esta­va no coman­do de uma ver­da­dei­ra revo­lu­ção. Foi quan­do se cri­ou a Embrapa.

Até os anos de 1970, o Bra­sil pra­ti­ca­va uma agri­cul­tu­ra inci­pi­en­te, base­a­da em conhe­ci­men­to impor­ta­do, gera­do na Euro­pa e nos EUA. Tudo mudou des­de então. Hoje, se imple­men­ta um mode­lo pró­prio de pro­du­ção rural, uma agro­pe­cuá­ria alta­men­te pro­du­ti­va, adap­ta­da às con­di­ções tro­pi­cais e sub­tro­pi­cais do país.

Pao­li­nel­li fez da ocu­pa­ção agro­pe­cuá­ria do cer­ra­do sua gran­de obra. Cha­ma­va-se Polo­Cen­tro o pro­je­to pio­nei­ro. Tec­no­lo­gia e ousa­dia o mar­ca­vam. A fron­tei­ra do Cen­tro-Oes­te era tida como impres­tá­vel, devi­do aos seus solos áci­dos, are­no­sos e ári­dos. Em 30 anos, tor­nou-se a região mais pujan­te do agro nacional.

O Bra­sil de anti­ga­men­te depen­dia de impor­ta­ções de comi­da para satis­fa­zer ao povo. Até lei­te vinha do exte­ri­or. Ago­ra, pro­duz o sufi­ci­en­te para aten­der ao mer­ca­do inter­no e ren­de exce­den­tes, expor­ta­dos para cer­ca de 160 paí­ses. Em 10 anos, o Bra­sil se tor­na­rá a mai­or nação agro­pe­cuá­ria do mundo.

“Quan­do assu­mi o Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, em 1974, o fran­go era uma pro­teí­na reser­va­da à eli­te. O con­su­mo per capi­ta naci­o­nal era de ape­nas 3,5 kg por ano. Hoje, os bra­si­lei­ros, em média, comem 45 kg de car­ne de fran­go a cada ano.”

Esse tes­te­mu­nho de Pao­li­nel­li ocor­reu em even­to recen­te, rea­li­za­do em sua home­na­gem na Fiesp. Seu bri­lhan­te dis­cur­so é dig­no de sua fama. A moder­ni­za­ção do agro naci­o­nal, dis­se ele, sig­ni­fi­cou “um dos mais vibran­tes pro­ces­sos de demo­cra­ti­za­ção ali­men­tar da tra­je­tó­ria humana.”

Por sua con­tri­bui­ção ao pro­ces­so civi­li­za­tó­rio, Alys­son Pao­li­nel­li está indi­ca­do por seus pares ao Nobel da Paz. Sim, da Paz. For­ne­cer ali­men­tos ao mun­do asse­gu­ra mai­or har­mo­nia entre os povos.

Enge­nhei­ro agrô­no­mo, for­ma­do pela anti­ga Esco­la Supe­ri­or de Agri­cul­tu­ra de Lavras (MG) –hoje uma uni­ver­si­da­de fede­ral gra­ças ao seu tra­ba­lho– Pao­li­nel­li se des­ta­cou ini­ci­al­men­te como pro­fes­sor e estu­di­o­so. Por isso, car­re­ga em seu DNA o valor da edu­ca­ção e da ciência.

Essa sóli­da e huma­nis­ta for­ma­ção asse­gu­rou a con­sis­tên­cia de suas ações polí­ti­cas. Por 3 vezes assu­miu a Secre­ta­ria de Agri­cul­tu­ra de Minas Gerais. Depu­ta­do cons­ti­tuin­te em 1988, aju­dou a for­ma­tar os capí­tu­los da polí­ti­ca agrí­co­la e agrá­ria do país. Pao­li­nel­li sem­pre brilhou.

Alys­son Pao­li­nel­li é o patro­no da agri­cul­tu­ra tro­pi­cal. Mais que coman­dar, ele ilu­mi­nou o cami­nho de uma obra cole­ti­va. Envol­veu gover­nos, empre­sas, pes­qui­sa­do­res, polí­ti­cos, agri­cul­to­res. Um esfor­ço con­jun­to, cen­tra­do no agro, em bus­ca do desen­vol­vi­men­to brasileiro.

Ao rea­li­zar seu dis­cur­so, na cerimô­nia da Fiesp, Pao­li­nel­li sur­pre­en­deu a todos com sua humil­da­de. Nes­sas horas você per­ce­be a gran­de­za de uma pes­soa. Pao­li­nel­li nun­ca cedeu à vaidade.

Jovens, vamos em fren­te”, fina­li­zou. Eu me sen­ti remo­ça­do. Emo­ci­o­nei-me. Era como se todos nós fôs­se­mos seus alunos.