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CEPEA: em movimento atípico, preço ao produtor cai 6% em maio

Natá­lia Gri­gol — Pes­qui­sa­do­ra do Cepea

O pre­ço médio do lei­te cru cap­ta­do por lati­cí­ni­os em maio regis­trou a pri­mei­ra que­da des­de dezembro/22. Pes­qui­sas do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da), da Esalq/USP, mos­tram que a “Média Bra­sil” líqui­da de maio foi de R$ 2,7229/litro, que­da de 6,2% fren­te à de abril e 2,2% menor que a de maio/22, em ter­mos reais (os valo­res foram defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de maio/23). É a pri­mei­ra vez em 2023 que os pre­ços no cam­po ficam abai­xo dos veri­fi­ca­dos em perío­do equi­va­len­te do ano pas­sa­do. Com esse resul­ta­do, a alta acu­mu­la­da des­de o iní­cio do ano se limi­tou para 4,9%.

O encer­ra­men­to da ten­dên­cia altis­ta em maio é algo bas­tan­te atí­pi­co para o setor, uma vez que, his­to­ri­ca­men­te, esse perío­do é carac­te­ri­za­do pela ele­va­ção das cota­ções, em decor­rên­cia da redu­ção sazo­nal da pro­du­ção no Sudes­te e no Centro-Oeste.

Con­tu­do, em 2023, as cota­ções foram pres­si­o­na­das pela com­bi­na­ção de três fato­res: con­su­mo enfra­que­ci­do, aumen­to de impor­ta­ções e que­da nos cus­tos de produção.

O con­su­mo de lác­te­os seguiu enfra­que­ci­do em maio, limi­ta­do pelo menor poder de com­pra da popu­la­ção e pelos pre­ços dos lác­te­os ain­da em pata­ma­res mais ele­va­dos do que no ano ante­ri­or. Con­si­de­ran­do-se a média de janei­ro a maio, os pre­ços do UHT, da muça­re­la e do lei­te em pó nego­ci­a­dos entre indús­tri­as e canais de dis­tri­bui­ção no esta­do de São Pau­lo esti­ve­ram 11,5%, 8,1%, 8,3%, res­pec­ti­va­men­te, mai­o­res em 2023 fren­te aos de 2022.

“Em 2023, as cota­ções foram pres­si­o­na­das pela com­bi­na­ção de três fato­res: con­su­mo enfra­que­ci­do, aumen­to de impor­ta­ções e que­da nos cus­tos de produção”

O aumen­to das impor­ta­ções de lác­te­os é um fator impor­tan­te nes­se con­tex­to por­que, além de o volu­me estar supe­ri­or ao de anos ante­ri­o­res, os pre­ços exter­nos estão mais com­pe­ti­ti­vos que os naci­o­nais – o que pres­si­o­na as cota­ções domés­ti­cas ao lon­go de toda a cadeia. Dados da Secex mos­tram que, em maio, as impor­ta­ções soma­ram mais de 208,8 litros em equi­va­len­te lei­te, altas de 42% fren­te a abril e de expres­si­vos 219% em rela­ção a maio/22.

As com­pras rea­li­za­das entre janei­ro e maio des­te ano estão três vezes mai­o­res que as regis­tra­das no mes­mo perío­do de 2022. Essa quan­ti­da­de repre­sen­ta apro­xi­ma­da­men­te 9,1% da cap­ta­ção for­mal de lei­te cru, ten­do como base os dados da Pes­qui­sa Tri­mes­tral do Lei­te do IBGE, de 2022. Vale des­ta­car que, no mes­mo perío­do do ano pas­sa­do, as impor­ta­ções repre­sen­ta­ram ape­nas 2,9% da cap­ta­ção nacional.

Além dis­so, é pre­ci­so res­sal­tar que os pre­ços de outras com­mo­di­ti­es tam­bém têm caí­do, o que impac­ta nos cus­tos de pro­du­ção do lei­te. A pes­qui­sa do Cepea mos­tra que, em maio, o Cus­to Ope­ra­ci­o­nal Efe­ti­vo (COE) da pecuá­ria lei­tei­ra caiu 2,3% na “Média Bra­sil”, influ­en­ci­a­do pela retra­ção nos pre­ços do con­cen­tra­do. Com isso, a rela­ção de tro­ca tem esta­do mais favo­rá­vel ao pro­du­tor: em maio, foram neces­sá­ri­os 25,8 litros de lei­te para a com­pra de uma saca de milho, melho­ra de 14,4% no poder de com­pra fren­te ao mês ante­ri­or e de 25,9% em rela­ção a maio/22. Esse con­tex­to incen­ti­va inves­ti­men­tos na pro­du­ção, o que tem fei­to a ofer­ta de lei­te se recu­pe­rar mes­mo na entressafra.

Em maio, o Índi­ce de Cap­ta­ção Lei­tei­ra do Cepea (ICAP‑L) avan­çou 1,5% na Média Bra­sil. Esse incre­men­to na cap­ta­ção se expli­ca sobre­tu­do pela melho­ria nos cus­tos de pro­du­ção. Mes­mo com o inver­no seco no Sudes­te e no Cen­tro-Oes­te nes­ta épo­ca do ano, na média des­sas regiões, a cap­ta­ção indus­tri­al amos­tra­da pelo Cepea ficou pra­ti­ca­men­te está­vel de abril para maio, com ele­va­ção de 0,3%. Já no Sul do País, a cap­ta­ção cres­ceu, em média, 2,4% no perío­do. Assim, a expec­ta­ti­va dos agen­tes de mer­ca­do é de que o volu­me pro­du­zi­do entre maio e julho pos­sa ser menos afe­ta­do pela vari­a­ção sazonal.

Nes­se con­tex­to, a des­va­lo­ri­za­ção do lei­te no cam­po ocor­re em con­so­nân­cia com o movi­men­to de que­da que ocor­re ao lon­go de toda a cadeia pro­du­ti­va. No caso dos lác­te­os (que vem apre­sen­tan­do des­va­lo­ri­za­ções des­de abril), a pes­qui­sa do Cepea em par­ce­ria com a OCB mos­tra que, em maio, os pre­ços médi­os do UHT, da muça­re­la e do lei­te em pó fra­ci­o­na­do caí­ram 3,8%, 0,6% e 3,7%, res­pec­ti­va­men­te, no ata­ca­do pau­lis­ta. Na com­pa­ra­ção anu­al, os valo­res fica­ram 1,1%, 1,7% e 1,3% abai­xo dos regis­tra­dos em maio/22, na mes­ma ordem. No caso do lei­te spot, já era pos­sí­vel obser­var, depois da segun­da quin­ze­na de abril, que­da nos pre­ços do lei­te spot e dos deri­va­dos lác­te­os. Em Minas Gerais, a média men­sal do spot em maio recu­ou 16,6%, che­gan­do a R$ 2,78/litro.

INDI­CA­DOR PRE­ÇO DO LEI­TE AO PRO­DU­TOR CEPEA
Pre­ços líqui­dos — não con­tém fre­te e impos­tos. Valo­res nominais.
BA GO MG SP PR SC RS BRA­SIL
jan.-23 2,4353 2,8740 2,6691 2,7437 2,7300 2,6709 2,5645 2,6619
fev.-23 2,3506 2,8807 2,7560 2,8025 2,8269 2,7467 2,6097 2,7276
mar.-23 2,4060 2,9469 2,8438 2,8740 2,8616 2,7842 2,7153 2,8120
abr.-23 2,4316 3,0244 2,9258 2,9126 3,0049 2,9327 2,8175 2,8961
mai.-23 2,3363 2,8105 2,7612 2,8426 2,8026 2,7532 2,5920 2,7229
vari­a­ção mensal -3,92% -7,07% -5,63% -2,41% -6,73% -6,12% -8,00% -5,98%
Nota: a par­tir de janei­ro de 2023, o Cepea mudou a for­ma de nome­ar as infor­ma­ções que divul­ga, iden­ti­fi­can­do os dados pelo mês da cap­ta­ção do lei­te cru, e não mais pelo mês do paga­men­to. Mai­o­res infor­ma­ções estão dis­po­ni­bi­li­za­das no site do Cepea.